Comemorar a Região Autónoma em dia do Espírito Santo é identificar a Autonomia com os Açores, afirma Avelino Meneses

O Secretário Regional da Educação e Cultura afirmou na sexta-feira, em Coimbra, que “a comemoração da Região Autónoma em dia do Espírito Santo corresponde ao esforço da identificação da Autonomia com os Açores”.

Avelino Meneses, que falava à margem da primeira sessão do Congresso Internacional do Espírito Santo, referiu que, “na verdade, o culto do Espírito Santo possui a dimensão da história e da geografia dos Açores”.

A Autonomia, pelo contrário, “é um fenómeno de menor dimensão, possui raízes no advento da contemporaneidade, na época das revoluções ocidentais e atlânticas que, na transição do século XVIII para o século XIX, propiciam a difusão dos ideais liberais e democráticos”, frisou.

“Além disso, por muito tempo, a Autonomia foi uma conquista de elites e de ilhas mais influentes. Por isso, ainda cabe à nossa geração a oportunidade e também obrigação de transformá-la em projeto de todas as ilhas e de todos os Açorianos sem exceção”, salientou Avelino Meneses.

O Secretário Regional, que proferiu uma intervenção neste congresso sobre ‘O culto do Espírito Santo como património social dos Açores’, sublinhou que, na Região, ao cabo de mais de meio milénio, e apesar de todas as “incompreensões”, o culto do Espírito Santo “é a manifestação religiosa mais forte, porque mais genuína”.

“Nunca como hoje foi a devoção ao Divino tão acarinhada pela Igreja, pelo Governo e pela sociedade”, acentuou, acrescentando, no entanto, que, “mesmo assim o perigo é grande”, porque, “acima de tudo, jamais se pode, jamais se deve, subtrair a festa ao povo”.

“É preciso relembrar talvez o grito de António Canaverde, nome fictício do líder dos Terroristas, que na refrega contra a prepotência do Bispo, Manuel Quinteiro, proclamou bem alto: ‘o Espírito Santo não é da Igreja, é do povo’, e, se é do povo, também não pode ser de nenhum poder político, seja ele municipal ou regional”, frisou.

Avelino Meneses realçou, ainda, que a secular devoção ao Divino “concilia o sagrado e o profano, tudo timbre de uma religião que é mais do povo do que propriamente de qualquer Igreja”, e que, neste contexto, “o Império do Espírito Santo é o verdadeiro Estado Social”,  cabendo nele “todos, crentes e não crentes”.

“Os Açores são a única região do país, ou quiçá do mundo, onde existe o denominado tempo do Espírito Santo, que se alonga da Páscoa até ao Pentecostes e à Trindade”, afirmou Avelino Meneses, recordando que, na ilha de Santa Maria, havia “a tradição de, no sábado de Aleluia, após o anúncio da ressurreição de Cristo, os foliões saírem à rua, dando oficialmente início à época do Espírito Santo”.

“No nosso calendário religioso, se a Páscoa é por excelência a festa dos cristãos, apesar do recente relevo do Natal movido pelos propósitos materialistas da sociedade de consumo, o Espírito Santo é a festividade mais celebrada pelo povo de todas as ilhas”, frisou, acrescentando que o culto do Espírito Santo, introduzido em Portugal no tempo de D. Dinis por influência de uma “corrente radical” de franciscanos espiritualistas, adeptos confessos da ideologia milenarista de Joaquim de Fiori, é historicamente “um traço distintivo” da cultura popular portuguesa.

Nos Açores, a introdução do culto do Espírito Santo remonta ao tempo do povoamento, verificando-se, ainda no decurso do século XV, a constituição de irmandades proprietárias de hospitais, promotoras de bodos e coroações, numa ação dos Franciscanos que contou com a proteção da Ordem de Cristo, responsável pela administração eclesiástica do arquipélago até 1514, salientou Avelino Meneses, para quem “na introdução e, sobretudo, no alargamento do culto do Espírito Santos nos Açores influi decerto o afastamento de Portugal continental, que dificulta a superintendência da hierarquia eclesiástica, que insiste na redução da participação popular na organização dos festejos, sob o pretexto da depuração de manifestações profanas, inclusivamente pagãs”.

O Congresso Internacional do Espírito Santo a decorrer em Coimbra, e depois em Lisboa e Alenquer, no segundo semestre de 2016, é uma iniciativa da Câmara Municipal de Alenquer, em parceria com um consórcio de universidades portuguesas, designadamente do Centro História D’Aquém e D’Além-Mar da Universidade dos Açores, da Diocese de Angra do Heroísmo e do Governo Regional dos Açores.

GaCS/RL Açores

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