Crónica de Opinião – 13 de dezembro de 2013

As palavras do João –  Adeus, Madiba

açores_radio_lumena_noticias_turismo_ilha_cronica_João_Gago_CâmaraO desaparecimento físico de Nelson Mandela deixa o mundo da indignação e da justiça num luto profundo. Partiu um homem bom, um homem que sacrificou a sua vida ao seu país e à causa da igualdade e da fraternidade em democracia.

Este é, todavia, um luto diferente para nós, portugueses, mas pela negativa, na posição de estigmatizados que ficámos na história das nações por consequência da má decisão política de Cavaco Silva, em 20 de novembro de 87- era então primeiro ministro de Portugal – em não instruir o embaixador a votar favoravelmente as oito resoluções na Assembleia Geral das Nações Unidas que então pediam a libertação de Mandela, pondo-se confortavelmente ao lado dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Face à então má decisão, hoje, no mediatismo do falecimento de Mandela, justamente se põe a questão do vexame que terá sido, do ponto de vista protocolar, o presidente português ter pontificado nas cerimónias fúnebres do ex-presidente sul africano. Presença sinistra e cínica, terão pensado certamente os devotos desse homem enorme que tanto amaram e que agora parte, o seu Prémio Nobel da Paz de 93.

Ele próprio, Mandela, ressentiu-se dessa posição de Cavaco, pois, entrevistado por Manuela Castro Moura, politóloga, jornalista freelancer na África do Sul e sua amiga, a dada altura da entrevista perguntou à jornalista: “Como é que vou atrair a atenção dos portugueses, que pensam que eu sou um monstro comunista?” Ao que Manuela Castro Moura respondeu: “‘dizes boa noite minhas senhoras e meus senhores em português e escreves foneticamente para teres a pronúncia certa”. E ele respondeu, “ok”.

Adianta ainda a jornalista que, aquando da libertação de Mandela, “todos os países enviaram telegramas de parabéns, menos Portugal. Eu ia diariamente ao escritório de Mandela, na sede do ANC, saber se havia informação mas nem Cavaco Silva, nem Mário Soares tinham enviado absolutamente nada de Lisboa”- confirmou.  

Alega Cavaco que o voto contra apresentado por Portugal nas Nações Unidas pretendeu defender a segurança dos portugueses então residentes na África do Sul, razão que não convencerá o mais crente dos cidadãos uma vez a grande maioria dos países que votaram favoravelmente a libertação de Madiba terem também à altura cidadãos nacionais a residirem naquele país.

Que necessidade tínhamos presentemente de comparecer no funeral de Madiba de fato e gravata mas de peúga rota?

Fico-me por esta frase do grande líder africano, que, na humildade, paciência e sabedoria, soube fazer a viragem do mundo monstruosamente injusto e detestável do apartheid entre brancos e negros: “Perdoem mas não esqueçam.”

Adeus, Madiba.

João Gago da Câmara

Deixe uma resposta