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Crónica de Opinião – 13 de junho de 2014

As palavras do João – A pessoa parte mas as histórias ficam

açores_radio_lumena_noticias_turismo_ilha_cronica_João_Gago_CâmaraA voz inconfundível fazia-se ouvir, baixa mas cava. Era ele, o pai, a acordar o filho e o sobrinho, que dormiam ambos, pés com pés, na cama do quarto da rua. “Levantem-se que se faz tarde!” Ainda eram quatro da manhã, mas tínhamos sessenta quilómetros de jipe pela frente até aos matos da Achada para mais um domingo de caçaria. Ele, já pronto, descia as escadas para a cozinha a passo lento para não acordar a restante família com o estalar da madeira do sobrado do velho casarão da rua do Castilho. Lá em baixo, depois, preparava o pequeno almoço, que era sempre pesado, assente em torresmos do porco da matança da casa, acompanhados de ovos estrelados e arroz, pão com manteiga e sumo natural das belíssimas laranjas do prédio. No fim, para assentar, a insubstituível tigela de leite com café quente. A manhã ia ser longa – havia que comer bem para aguentar até ao almoço.

As histórias sucediam-se no decorrer desta primeira refeição do dia. Ele, o pai, contava, então, lembrar-se, de, ainda pequenino, sentar-se nos joelhos do seu pai para, também ele, ouvir histórias. Eram momentos de recolhimento e de reunião, exclusivos, entre pai e filho, confessava. O velho avô Jacinto, que não tive a felicidade de conhecer, pois faleceu quando o meu pai contava apenas com dezassete anos, cultivava o hábito de tomar dois ou três “calzinhos” de cachaça da terra antes da hora da janta, e, sendo um “exímio” contador de histórias, adorava ter o filho ao colo e contar-lhe histórias antigas, que, de todas as vezes, surpreendiam e maravilhavam o pequeno João. Homem abastado e generoso, o velho avô dizia ter arranjado velhas casas de pedra, criando-lhes condições condignas para a habitação de famílias pobres. “Deves ajudar sempre os outros, João.” Falava-lhe também de um velho iate de recreio pertencente ao tetravô, Barão da Fonte Bella, o “Aquila”, com que navegara os mares do planeta, e que numa noite, convidando todos os seus melhores amigos, só homens, para um jantar a bordo, com os reposteiros corridos nas vigias do veleiro, os surpreendeu a todos, mandando o comandante zarpar de Ponta Delgada rumo a Paris. Indo o jantar já avançado, reabriu os reposteiros e mostrou-lhes, para pasmo de todos, as luzes de Ponta Delgada ao longe, e anunciou-lhes a próxima paragem, o porto de Havre, na cidade da luz, Paris. Não faltaram roupas e haveres para a longa viagem.
O contar de histórias foi-se afirmando património no perpassar dos séculos entre a família. Quantas vezes ouvi o pai a ser instado pelos netos a contar-lhes histórias durante as refeições. O jantar até sabia melhor ao som da voz sábia do velho mestre da vida, umas vezes com histórias sérias, outras, na maior parte das vezes, com contares jocosos que disparavam a risada da pequenada em toda a mesa. A pessoa parte mas as histórias ficam. E as saudades também.

João Gago da Câmara

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