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Crónica de Opinião – 21 de março de 2014

As palavras do João – Entre xailes e bordões

açores_radio_lumena_noticias_turismo_ilha_cronica_João_Gago_CâmaraAí está novamente o murmúrio na estrada, nos matos, montes, vales, grotas e veredas, chegada que é a hora da ilha dizer que está viva na fé e na interioridade. Os romeiros da Quaresma, eles aí vão andarilhando em comunhão espiritual no louvor a Cristo e em profundo respeito pela Seu padecimento e morte. Cada um quer renovar-se nas suas crenças religiosas católicas apostólicas romanas integrando ranchos, que, indiferentes à chuva, ao sol, ao calor e ao frio, botam corajosamente pés ao caminho, e, em absoluto desprendimento,  desapoderam-se de bens materiais para abraçarem apenas o lado espiritual. “Avé Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres, bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus”, e o rancho responde  em uníssono, “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte, amém”, … entre outras rezares como o “seja louvada a sagrada morte e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o rancho replica: “Seja para sempre e Sua Mãe Santíssima, Senhora nossa.

Os ranchos têm a sua hierarquia: o Mestre que os lidera e que a tudo superintende, o Procurador das Almas, aquele que recebe os pedidos de oração do povo e os passa aos irmãos, e o guia, este geralmente o romeiro mais experimentado nos trilhos e o mais conhecedor dos locais de melhor passagem. É bonito vê-los em conjunto trajando tradicionalmente o xaile e de lenço sobre os ombros, sacos às costas e bordões nas mãos, lançando por entre o verde da ilha mensagens de penitência e de paz.

Reza o dizer do povo que as romarias quaresmais terão tido a sua origem no grande cataclismo sísmico ocorrido em Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, em 22 de outubro de 1522. O povo, temente e choroso, logo passou a organizar procissões de penitência como forma de suplicar por misericórdia à divindade.

A ilha está diferente pois aí vão eles peregrinando, enchendo de cânticos a rudeza dos caminhos rumo às casas da Virgem que são as igrejas e ermidas das cidades, vilas, aldeias e lugares, procurando Nossa Senhora e a sua divindade para sete dias depois voltarem a entrar na paróquia das suas moradias.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Este não é o caso. A vontade persiste no escrupuloso cumprimento religioso da história e o tempo perpetua-se igual a si próprio guiado no fervor das boas gentes da ilha.

 João Gago da Câmara

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