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Crónica de Opinião – 31 de janeiro de 2014

As palavras do João – Até quando as praxes?

açores_radio_lumena_noticias_turismo_ilha_cronica_João_Gago_CâmaraVem-nos a todos certamente chamando a atenção o arrazoado de opiniões e de sentenças proferidas por “n” artistas da palavra – que os há hoje às carradas – nas televisões e imprensa nacional sobre as cada vez mais polémicas praxes académicas.

A praxe, quando era suposto ter como objetivo levar novos alunos a uma mais fácil aproximação e integração no meio universitário, proporcionando-lhes travarem conhecimento com outros  mais antigos e experientes no interesse de uma interação proveitosa, com o andar dos tempos, vem sendo cada vez mais desvirtuada para formas de humilhação e de agressão física e psicológica com casos de danos físicos, registando-se até acidentes que levaram à morte de caloiros.

A universidade de Coimbra foi a única no país durante séculos a usar a praxe, praticando-a os denominados “archeiros”, uma espécie de corpo policial próprio da universidade, cujo papel era fazer cumprir a ordem no campus, sobrepondo-se, em poder, às autoridades policiais, até para prender alunos indisciplinados. Teófilo Braga, mais tarde Presidente da República, em 1901 chegou a relatar haver alunos que faltavam às aulas para fugirem à praxe, e Eça e  Ortigão, um ano depois, no ano do canelão, em que alunos eram agredidos à canelada, manifestavam-se contra, assinando, com outros alunos, um “manifesto anti-praxe.” Apesar destas tentativas, o facto é que a praxe não terminou. Pelo contrário, perpetuou-se e agravou-se. Hoje, estendida às demais universidades e politécnicos, até aos ensinos básico e secundário, o seu mote persistiu mas com outro entendimento para pior: Dura Praxis, Sed Praxis – a praxe é dura mas é a praxe. Basta lembrarmo-nos dos casos da  estudante universitária em Santarém coberta de excrementos por se ter declarado anti-praxe, do impedimento aos alunos contra a praxe, apelidados de camelos, de usarem o traje académico e de participarem em confraternizações do curso, da pintura com marcadores radex usados para marcar gado,  das caloiras de gatas passeadas pelos praxantes com trelas ao pescoço…! O que é isto? Esta gente endoideceu? Proíbam-se as praxes de uma vez por todas, dentro e fora das universidades, com sanções bem pesadas, passando pela expulsão da instituição. Haja coragem para acabar com estas selvajarias a coberto de uma tradição parva e grotesca, hoje imprópria de uma sociedade tida como civilizada. Veteranos desacreditados por há anos andarem a chumbar cadeiras não deixando os mais novos estudar desandem porta fora. Estancam-se assim gastos desnecessários de verbas do erário público e de famílias pagantes, muitas delas carenciadas, a patrocinarem simplórios.

Sr. Ministro da Educação e Ciência, deputados, governantes regionais, reitores e administradores universitários, representantes de associações de estudantes, ponham definitivamente um fim a isto.

 João Gago da Câmara

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