Opinião: Quando um voo falha, não é apenas uma viagem que fica por fazer

A SATA é, para os açorianos, muito mais do que uma companhia aérea. É o principal elo de ligação entre as nove ilhas e uma empresa pública que, há quase 85 anos, garante a mobilidade dos açorianos para trabalhar, estudar, tratar da saúde, praticar desporto, participar em atividades culturais ou, simplesmente, estar com a família.

Continuo a confiar plenamente nos seus pilotos, comandantes, tripulantes de cabine, técnicos e restantes trabalhadores. São profissionais de excelência que, diariamente, dão o melhor de si.

No entanto, a minha confiança na gestão da empresa e na forma como é assegurada a sua disponibilidade operacional está seriamente abalada. E isso preocupa-me, porque as decisões tomadas hoje podem comprometer o futuro da companhia e, acima de tudo, a qualidade de vida dos açorianos.

Nas ilhas, a mobilidade não é um luxo. É uma necessidade. Apesar da existência das ligações marítimas da Atlanticoline em algumas rotas, a realidade é que, para grande parte da população, a SATA continua a ser o único meio rápido e eficaz de deslocação.

Esta dependência torna-se ainda mais evidente quando falamos de saúde. Os Açores possuem apenas três hospitais para servir uma população de cerca de 245 mil habitantes, distribuída por nove ilhas. Todos os dias existem pessoas que dependem de um voo para receber tratamentos, realizar exames ou ser submetidas a cirurgias que não existem na sua ilha de residência.

Foi precisamente essa realidade que vivi com o meu pai, de 77 anos.

No dia 1 de agosto tínhamos viagem marcada de São Jorge para a Terceira. O motivo era dos mais importantes: o internamento para uma cirurgia à coluna, marcada após três anos de consultas, exames, pareceres médicos e uma longa espera em lista cirúrgica.

Nessa manhã, as condições meteorológicas em São Jorge não eram favoráveis. Fizemos o check-in e aguardámos na sala de embarque. O voo foi sucessivamente atrasado: primeiro para as 08h50, depois para as 09h15 e, finalmente, para as 09h40.

Entretanto, o estado do tempo melhorou significativamente. Era já possível observar com nitidez as ilhas do Pico e do Faial. Não questiono as decisões operacionais, porque não possuo conhecimentos técnicos para o fazer e respeito totalmente quem tem a responsabilidade de garantir a segurança dos voos.

Pouco depois das 09h45 recebemos a notícia que ninguém queria ouvir: o voo tinha sido cancelado.

A alternativa apresentada foi viajar apenas no dia seguinte, às 18h20.

Ora, o meu pai tinha de estar internado no Hospital do Santo Espírito da Ilha Terceira às 14h00 do dia 2 de agosto para preparação da cirurgia. Esse voo já não respondia às necessidades da situação.

Naquele momento senti que três anos de espera estavam prestes a cair por terra.

Durante anos vi o meu pai perder mobilidade, sofrer dores constantes e ver a sua qualidade de vida deteriorar-se. Quando finalmente surgiu uma solução, bastou o cancelamento de um voo para colocar tudo em risco.

Perante a incerteza — E se amanhã o voo também não se realizar? E se houver nova avaria? E se o tempo voltar a impedir a operação? — tomámos uma decisão difícil.

Após poucos minutos de reflexão, porque em São Jorge cada minuto conta quando falamos de mobilidade, seguimos de barco pela Atlanticoline, numa viagem de cerca de três horas entre a Calheta e Angra do Heroísmo.

Para uma pessoa debilitada, com fortes dores na coluna e mobilidade reduzida, permanecer sentado durante tanto tempo num barco representa um enorme sacrifício. Mas não existia outra alternativa.

Felizmente, o meu pai conseguiu chegar à Terceira, foi submetido à cirurgia e tudo correu bem.

Recebeu alta no dia 4 de agosto.

Pensámos que o pior tinha passado.

Mas não.

Quando me dirigi ao balcão da SATA para tratar do regresso, fui informado de que só existiam lugares disponíveis para o dia 15 de agosto.

Como alternativa, sugeriram a bem dita, lista de espera.

É aceitável pedir a um homem de 77 anos, recém-operado à coluna, que permaneça vários dias longe da sua ilha, dependente da esperança de surgir um lugar disponível?

Mais tarde voltei ao balcão e fui atendido por duas funcionárias do balcão que, com enorme profissionalismo e empenho, conseguiram encontrar dois lugares para o dia 6 de agosto.

A essas profissionais deixo o meu sincero agradecimento.

Tal como ela, muitos trabalhadores da SATA dão diariamente a cara por problemas que não criaram e sobre os quais não têm qualquer responsabilidade.

A minha indignação dirige-se às decisões de gestão e às políticas que condicionam o serviço prestado aos açorianos.

Por isso deixo algumas perguntas, tanto à SATA como ao Governo Regional dos Açores:

• Porque motivo um voo cancelado é automaticamente reagendado apenas para o dia seguinte, quando isso pode significar perder consultas, cirurgias, voos de ligação ou compromissos inadiáveis?

• Não existe qualquer possibilidade de realizar esses voos mais tarde no próprio dia?

• Quais são os critérios de prioridade quando surgem lugares disponíveis? Doentes? Residentes? Turistas? Titulares de cargos políticos?

• Se uma aeronave não pode cumprir determinado voo por limitações de horário, porque motivo esse voo se realiza no dia seguinte? Essa mesma aeronave não tem voos programados para esse dia?

• Porque continua São Jorge sem operação noturna?

• Será realmente impossível criar as condições necessárias para a sua implementação?

• Porque continua a instalação de um sistema ILS (Instrument Landing System) a não ser encarada como uma prioridade para reduzir os impactos da frequente baixa visibilidade?

• A criação de um grupo de trabalho entre a SATA e o IPMA para reduzir cancelamentos por motivos meteorológicos será a solução mais eficaz ou apenas a solução possível?

• Considera o Governo Regional que este modelo de funcionamento responde verdadeiramente às necessidades dos açorianos?

• Será esta a melhor forma de garantir a coesão territorial e a igualdade entre todas as ilhas?
Os Jorgenses compreendem que existem condições meteorológicas que impedem a operação aérea. A segurança estará sempre em primeiro lugar.

O que custa compreender é a ausência de soluções quando os voos são cancelados, sobretudo quando estão em causa situações de saúde.

A insularidade já nos impõe limitações suficientes.

Não podemos aceitar que essas limitações sejam agravadas por falta de planeamento, de capacidade de resposta ou de investimento.

A SATA é património dos Açorianos.

Queremos continuar a sentir orgulho na nossa companhia aérea.

Mas esse orgulho constrói-se com responsabilidade, transparência e respeito por quem dela depende todos os dias.

Porque quando um voo falha, muitas vezes não é apenas uma viagem que fica por fazer.

Pode ser uma cirurgia, um tratamento, um emprego, um reencontro familiar ou a esperança de alguém que esperou anos por uma oportunidade.

Por isso, este texto não pretende atacar a SATA nem os seus trabalhadores. Pretende, sim, lançar um apelo à administração da empresa e ao Governo Regional dos Açores para que respondam, de forma clara e pública, às questões aqui colocadas e expliquem aos açorianos quais são as soluções previstas para garantir um serviço compatível com a realidade da nossa Região Autónoma.

Os açorianos não pedem privilégios.

Pedem apenas que a insularidade deixe de ser um obstáculo acrescido quando está em causa um direito tão básico como o acesso à mobilidade.

Bruno Miguel Soares de Sousa